Congresso Internacional Mundos Indígenas inicia sua VI Edição promovendo saberes ancestrais 

 A Universidade do Estado da Bahia é território do VI Congresso Internacional Mundos Indígenas, América: Histórias, Territorialidades e Saberes Indígenas (COIMI) – evento que reúne mais de 1.500 pesquisadores indígenas e não indígenas para a construção de caminhos científicos interdisciplinares a partir da perspectiva dos povos originários.  

Toré na abertura do evento

 O ritual de abertura das atividades aconteceu na entrada do Teatro, no Campus I, em Salvador, com a realização do toré (ritual de canto e dança) que reuniu parentes de cerca de 14 etnias de povos indígenas da América Latina e Europa.  

Os povos indígenas nos ensinam que o mundo nunca foi só; sempre foi junto. Esse congresso existe porque esse mundo indígena resistiu e resiste. Os povos indígenas continuam nos ensinando outra forma de pensar e de viver”, declarou o coordenador do VI COIMI, professor Pedro Daniel. 

Em seguida foi formada a mesa de abertura com a presença da reitora Adriana Marmori, da coordenadora geral do COIMI, Juciene Tarairiú, da Superintendente de Políticas para os Povos Indígenas do Estado da Bahia, Patrícia Pataxó e do coordenador do VI COIMI e pró-Reitor de Extensão, professor Pedro Daniel.  

Reitora saudando os presentes

“Há muito se fala que há um conhecimento que é do senso comum e de que há um conhecimento que é científico. E quando a gente trata dos saberes indígenas e quilombolas, costuma-se colocar na conta do senso comum e pouco no lugar do conhecimento científico. E aqui hoje a gente bate no peito e diz: ‘nós produzimos ciência; somos pesquisadores e pesquisadoras indígenas’”, declarou a reitora Adriana Marmori.  

A mesa de abertura contou com a presença de dois caciques recentemente laureados com os títulos de doutores honoris causa pela UNEB, representações que são reconhecidas pelo compartilhamento dessa sabedoria ancestral: Juvenal Payayá e Cacique Babau (Tupinambá).   

Babau: sabedoria compartilhada

“Conhecimento quando se junta, gera sabedoria. Nós não podemos discutir conhecimento de maneira individualizada. A cultura ancestral Tupinambá nos requisita o compartilhamento de toda sabedoria individual para que ela não seja extinta quando a pessoa partir. Quando a sabedoria é compartilhada, ela é somada com o outro que está ouvindo e isso nos engradece: porque ao reconhecer a sabedoria do outro nos completamos. E a Universidade tá fazendo isso: ela está nos ouvindo”, declarou o Cacique Babau.  

Estiveram também na mesa a diretora do Departamento de Povos Indígenas, Comunidades Tradicionais e Camponesas, do Campus XXVI, Floriza Sena; o coordenador de Educação Escolar e egresso da UNEB, professor José Carlos Tupinambá e a discente do curso de Licenciatura Intercultural, Sabrina Tupinambá.    

Vanda Witoto em conferência

Após a mesa, foi realizada a conferência de abertura com a liderança indígena no Amazonas, Vanda Witoto. Sob o tema “Povos Indígenas na Amazônia: Lutas, Resistência e Saberes Ancestrais”, Vanda, que é também pedagoga, tratou da importância da educação na reafirmação da identidade indígena e promoveu uma reflexão sobre o protagonismo feminino nas lutas indígenas a partir da sua experiência como diretora do Instituto Witoto. 

Esta edição do COIMI tem como tema “Histórias, Memórias e Saberes Indígenas” e uma programação que reúne 71 simpósios temáticos, 42 minicursos, 15 círculos de palavras, além de 3 conferências – além de mostra de filmes, intervenções artísticas e feira indígena. Confira o calendário de atividades dos dias 26 e 27 de fevereiro. 

O Congresso conta com a participação de pesquisadores de todos os estados do Brasil.  As temáticas investigadas perpassam a educação escolar superior indígena, a diversidade cultural, os direitos, as línguas e as literaturas dos povos indígenas da Abya Yala (América).   

COIMI  

O COIMI é um evento bianual, criado no âmbito do grupo de pesquisa internacional Seminário Permanente Mundos Indígenas – Abya Yala (SEPMIAI) no Centro de Humanidades, na Universidade Nova de Lisboa, Portugal, em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande, Paraíba.  Ele é realizado desde 2015 e acontecerá, pela primeira vez, na Bahia. 

TERRITÓRIO INDÍGENA  

Ao sediar a VI COIMI a UNEB reafirma o seu caráter de Universidade popular e inclusiva. Em uma ação pioneira, em 2007 a instituição ampliou o sistema de reserva de vagas para as populações indígenas. Atualmente, conta com 1.243 estudantes indígenas, das mais variadas etnias, em cursos de graduação e de pós-graduação, em todas as áreas do conhecimento.  

A UNEB possui também três centros de pesquisa que desenvolvem estudos a partir da perspectiva dos povos originários: o Centro de Pesquisas em Etnicidades, Movimentos Sociais e Educação (Opará), localizado no Campus Intercultural em Jeremoabo; o Centro de Estudos e Pesquisas Intercultural da Temática Indígena (Cepiti), em Teixeira de Freitas; e o Centro de Estudos dos Povos Afro-Indígenas-Americanos (Cepaia), em Salvador.     

Atualmente a Universidade oferece formação de professores em nível superior para atuarem em escolas indígenas através dos cursos das Licenciaturas Intercultural em Educação Escolar Indígena (Liceei) e em Pedagogia Intercultural em Educação Escolar Indígena (Pieei).    

Para promover a institucionalização das condições de permanência dos estudantes indígenas ingressos através de cotas  a UNEB desenvolve, desde 2022, o programa Apako Zabelê (PBIAZ) que oferta 287 bolsas auxílio aos discentes da Universidade.  

Texto: Leandro Pessoa Fotos: Cindi Rios e Ingrid Oliveira