Seminário da UNEB e ALB celebra legado de José Calasans e inspira novos caminhos para estudos sobre Canudos

Espírito de reconhecimento, afeto e continuidade marcaram evento. Fotos: João Victor Santos/Ascom

Poucos pesquisadores foram capazes de transformar a escuta em método de pesquisa e a generosidade em legado acadêmico como José Calasans. Ao dedicar décadas de sua vida à compreensão de Canudos e do sertão brasileiro, o historiador sergipano ampliou os horizontes da historiografia nacional e formou gerações de pesquisadores que encontraram em sua obra, e em sua convivência, inspiração para seguir investigando, ensinando e compartilhando conhecimento.

Foi nesse espírito de reconhecimento, afeto e continuidade que a UNEB, por meio do Centro de Estudos Euclydes da Cunha (CEEC), e a Academia de Letras da Bahia (ALB) realizaram, na última quinta-feira (28), o Seminário José Calasans – Canudos e Outros Temas.

O evento foi coordenador pelos pesquisadores Manoel Neto (UNEB) e Aleilton Fonseca (ALB)

O evento reuniu pesquisadores, professores, estudantes e admiradores do intelectual para homenagear sua trajetória e refletir sobre a atualidade de suas contribuições para os estudos sobre Canudos, o sertão e a cultura nordestina.

Ao longo da programação, o encontro foi marcado pelo rigor acadêmico das discussões e também por uma atmosfera de acolhimento, amizade e partilha de experiências, características frequentemente associadas à personalidade de Calasans, por aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.

Palestras, mesas temáticas e depoimentos destacaram a relevância de suas pesquisas para a preservação da memória de Canudos e para a renovação das interpretações sobre a Guerra contra Canudos, fenômeno histórico que permanece central para a compreensão da formação social e política do Brasil.

Memória, afeto e permanência

Além das reflexões acadêmicas, o seminário foi marcado por relatos emocionados de convivência com José Calasans. Muitos dos participantes recordaram o pesquisador rigoroso e inovador, mas também o amigo generoso, o professor acessível e o intelectual comprometido com a formação humana de seus interlocutores.

Seminário reuniu pesquisadores, professores, estudantes e admiradores do intelectual

Coordenador do evento e do Centro de Estudos Euclydes da Cunha (CEEC), da UNEB, Manoel Neto compartilhou lembranças do homenageado e destacou a forma singular como ele se relacionava com a vida e com o trabalho: “Uma característica de Calasans me fascinava muito. Ele era sério sem ser mal-humorado, era um homem de sorriso fácil e de fazer sorrir com facilidade”.

As histórias compartilhadas ao longo do dia revelaram que o legado de José Calasans ultrapassa os livros, artigos e pesquisas que produziu. Ele permanece vivo nas relações que construiu, nas instituições que ajudou a fortalecer e nas gerações de pesquisadores que continuam ampliando os caminhos por ele abertos.

A dimensão humana e intelectual do pesquisador também foi ressaltada pelo presidente da Academia de Letras da Bahia, Aleilton Fonseca. Para o acadêmico, o homenageado desempenhou papel decisivo na renovação dos estudos sobre Canudos e na valorização da memória sertaneja.

Segundo ele, ao chegar à Bahia, o pesquisador consolidou-se como uma das principais referências nacionais sobre o tema, reunindo estudiosos e fortalecendo uma tradição de pesquisa que permanece viva até os dias atuais. O presidente da ALB destacou ainda que compreender Canudos continua sendo fundamental para entender as desigualdades, os conflitos sociais e aspectos centrais da formação do Brasil contemporâneo.

Novas formas de olhar Canudos

As reflexões apresentadas durante o seminário evidenciaram que a obra de José Calasans segue inspirando novas perguntas, novos pesquisadores e novas formas de compreender a história, a cultura e a identidade do Nordeste brasileiro.

Durante a mesa “José Calasans – Quase Biografias do Mestre: Ideias e Percursos”, a professora Lina Brandão Aras, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), ressaltou a importância do pesquisador para a renovação dos estudos sobre Canudos e para a valorização das vozes sertanejas como fontes legítimas da história.

Lina Brandão Aras: “ele vai lá, escuta e traz novas fontes, e isso nos permitiu aprimorar”

“Foi o professor Calasans que nos ensinou que não foi Guerra de Canudos, mas Guerra contra Canudos, que é a terminologia que usamos atualmente. Em um momento em que historiadores não traziam novas fontes, ele vai lá, escuta e traz novas fontes, e isso nos permitiu aprimorar. Se não fosse a escuta dele, não teríamos essas abordagens e nem olhado para essa cultura”, destacou Lina.

A valorização das memórias, dos testemunhos e das narrativas populares foi apontada por diversos participantes como uma das marcas mais importantes da obra do homenageado, responsável por ampliar significativamente o repertório documental disponível para os estudos sobre o sertão brasileiro.

Para o professor Luiz Paulo Neiva, diretor do Campus Avançado da UNEB em Canudos, uma das maiores heranças deixadas pelo intelectual está na sua disposição permanente para compartilhar saberes: “a importância do professor José Calasans está em ajudar a formar novos estudiosos e novos pesquisadores. Tem até uma frase que colocamos no parque, em que ele dizia: ‘Eu gosto muito de pesquisar, mas gosto ainda mais de dividir e compartilhar os conhecimentos’.”

Ao promover o seminário, a UNEB, por meio do CEEC, e a Academia de Letras da Bahia reafirmaram o compromisso com a preservação da memória intelectual brasileira e com o fortalecimento dos estudos sobre Canudos e o sertão.

A iniciativa demonstrou que o legado de José Calasans permanece vivo na historiografia nacional, mas também na capacidade de inspirar novas gerações a pesquisar, dialogar e compreender, de forma cada vez mais ampla, a história e a cultura do Nordeste brasileiro.

Texto: João Victor Santos/Ascom, com supervisão de Danilo Oliveira/Ascom