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ASCOM Entrevista: Luciano Santos “Chegamos, historicamente, a uma encruzilhada, onde a distopia e a utopia se apresentam muito próximas”

 

Luciano Santos, filósofo

Conhecido por seu discurso coerente, firme e amoroso sobre o mundo e a humanidade, o professor da UNEB Luciano Santos nos presenteou com reflexões sobre a condição humana em tempos pandêmicos em entrevista concedida à Assessoria de Comunicação (Ascom) da universidade.

Luciano,  que é doutor em filosofia, faz uma análise do cenário atual, sinalizando a existência de uma pane na ordem civilizatória que nos rege, a globalização. Para ele, “o poder foi agigantado em detrimento do sentido, produzindo situações cada vez mais insolúveis, que tornam os nossos piores pesadelos cada vez mais normalizados, cotidianos”.

Nesse bate-papo, o pesquisador nos conduz por uma trilha reflexiva potente, indicando que, no mundo pós-pandemia, ousemos “trabalhar por uma mudança de época que seja muito mais que só que a continuação desenfreada de uma época de mudanças, que parece caminhar cada vez mais para o vazio”.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Emergência virou a palavra da vez. Todas as decisões precisam ser imediatas, sejam nas UTIs hospitalares ou na vida política, por exemplo. Quais as consequências desse estado constante de emergência para o futuro da humanidade, principalmente no contexto de desgoverno que vivemos no Brasil?

Luciano Santos: Me parece que a proliferação desses estados de emergência estão a nos dizer que há uma situação planetária de pane na ordem civilizatória que nos rege e que nós chamamos de globalização. Essa pane no sistema com todas as séries de emergências que ela suscita, deve radicalizar uma discussão sobre qual é o sentido do estado como gestor da ordem pública e, especialmente, quais as prioridades que cabem ao estado nesses contextos emergenciais, no sentido de transformar essas prioridades em políticas públicas.

E é evidente que, no caso específico do Brasil, onde nós vivemos numa situação praticamente de anomia, quer dizer, de sistemática, deserção do governo, das suas políticas públicas e do seu compromisso com princípios civilizatórios, essa questão se torna extremamente crucial.  Retomar essa responsabilidade do Estado como gestor da ordem pública é uma questão realmente de sobrevivência coletiva, sobretudo ao que se refere àqueles setores da população que são mais e mais desconsiderados tradicionalmente pelos governos.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Pensando na geopolítica da vacina, no isolamento nacionalista (cada nação por si) e na vigilância totalitária (privacidade hackeada). Que avaliação você faz da condição humana hoje, nesse contexto pandêmico mundial? E no Brasil?

Luciano Santos: Bem, de saída eu gostaria de ressalvar que essa situação de isolamento nacionalista não é propriamente de todos os países, quer dizer, não é uma constituição do nosso contexto, é fruto de uma posição política. Há países, sem dúvida alguma, melhor alinhados com a chamada ordem civilizatória global, que optam por fazer políticas que priorizam não apenas a os próprios setores internos , que já usufruem de maiores poderes econômicos e de maior acesso a direitos e a privilégios.

É preciso também lembrar que há países, e eu destaco um exemplo quase, digamos, paradigmático, que é o de Cuba, onde apesar de todos seus desafios e fragilidades internas, estabelecem ordens de prioridade que não apenas fazem com que se programem para responder as suas demandas internas, dando mais atenção aos vulneráveis, como também se mobiliza no sentido de organizar uma globalização da solidariedade. Quer dizer, prestando ajuda a países, por vezes até tradicionalmente mais desenvolvidos, ou assim, reconhecidos, no que se refere a vacina, atendimento médico e assim por diante.

Gostaria também de lembrar a existência do estado para administrar, gerir necessidades públicas e  não gerir pessoas. Quer dizer, trata-se de intervir nos problemas de ordem pública, especialmente, quando afetam setores desprotegidos, e não controlar a vida dos cidadãos, aí considerados como indivíduos. Então, nesse sentido, é muito importante que, esse contexto pandêmico, nos desperte para questionar qual é a razão e qual é o destino civilizador do estado, em relação aos problemas e às pessoas.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Considerando os caminhos e descaminhos da nossa história, mudanças estruturais como a que experienciamos hoje com a pandemia podem mudar as características primárias da nossa natureza humana? Você acredita que a pandemia é/será um marco evolutivo da humanidade? Seria ela a matriz para a construção de um novo mundo?

Luciano Santos: Bem, eu não estou convencido de que em decorrência da pandemia nós estejamos passando por mudanças estruturais. Isso é justamente o que eu gostaria que acontecesse. Mas, seguramente, estamos vivendo impactos profundos, impactos sísmicos, digamos assim, na nossa ordem civilizatória. Também não sei ou tendo a não acreditar, que essas mudanças que estamos sofrendo a partir da pandemia, tenham exatamente que mudar as características da nossa natureza humana. Mas a minha esperança é de que as mudanças em curso possam oportunizar justamente uma revisão do projeto civilizatório, hoje, definido por impasses, insolvência e irracionalidade sistêmica, onde todo poder do conhecimento e da tecnologia se destina ao acumulo de poder, por uma reduzidíssima minoria da população mundial. Falo de uma revisão que, ao contrário de mudar características da natureza humana, reafirmasse aquilo que justamente é a humanidade em nós. E que se está perdendo com essa forma de organizar a sociedades, de organizar a nossa existência coletiva, que é a que nos trouxe até essa crise.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Você acredita que a pandemia é será um marco evolutivo da humanidade? Seria ela a matriz para a construção de um novo mundo?

Luciano Santos: De fato, o que nos resta e esperar ou apostar proativo, né? Não é justamente a volta ao normal, como no ano passado, por exemplo, no início da pandemia, tanto se suspirava numa espécie de impaciência que o confinamento gera. Trata-se, mais precisamente, da desnaturalização do normal, ou seja, a consideração de que essa tal ordem natural das coisas, de que essa tal civilização humana, ocidental e muito, impropriamente dita cristã, porque de cristã não tem nada, sirva de parâmetro para a nossa organização como sociedade.

Então, de fato, a esperança que fica é que o pós-pandemia, seja o desafio de ousarmos trabalhar por uma mudança de época que seja muito mais que só que a continuação desenfreada de uma época de mudanças, que parece caminhar cada vez mais para o vazio. Quanto mais acelera a engrenagem, mas se precipita para borda do abismo.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Sei que é impossível prever o que virá, mas, considerando a sua área de estudo e empirismo, quando você fecha os olhos e pensa no futuro, o que vê?

Luciano Santos: Nós chegamos, historicamente, a uma encruzilhada, onde a distopia e a utopia se apresentam muito próximas, eu diria mesmo muito!  A distopia quer dizer, toda essa produção de uma ordem civilizatória em que o poder foi agigantado em detrimento do sentido, produzindo situações cada vez mais insolúveis, que tornam os nossos piores pesadelos cada vez mais normalizados, cotidianos.

Mas, justamente, em face disso e em resposta a isso, também vejo que aquelas forças comprometidas com a vida, que alguns chamam de terranos, isto é, aqueles que não apenas se encontram passando pela Terra, mas que levam consigo o compromisso de cuidar da terra na sua integralidade, cuidar das populações humanas, cuidar do meio ambiente, que é a nossa morada, portanto, cuidar de aquilo que faz a nossa existência terrena.  Vejo, pois, esses atores comprometidos não apenas com a sobrevivência, mas com o nosso bem viver. Esperamos que eles se tornem cada vez mais organizados, cada vez mais indignados com o estado a que chegamos e que, portanto, tornem também cada vez mais cotidiana a mobilização de uma política utópica, em vista da transformação dos fundamentos desse sistema insolúvel, inviável, que nos levou até onde estamos.

Portanto, vejo no presente uma perspectiva, nos tempos que se avizinham, de um confronto cada vez mais aberto entre uma possibilidade distópica e uma possibilidade utópica decorrentes do processo histórico que nos trouxe até aqui.

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Luciano Santos (ver currículo lattes) é fonte da nossa primeira edição da Reportagem de Capa Pandemia e condição humana: que futuro estamos desenhando para a humanidade? Já conferiu? Clica aqui e nos acompanhe nessa jornada reflexiva sobre o desenho civilizatório que estamos rascunhando para o nosso amanhã.

 

Pandemia e condição humana: que futuro estamos desenhando para a humanidade?

Wânia Dias

O mundo, tal qual conhecíamos, está mudando.  Após mais de um ano sobrevivendo à pandemia da Covid-19, se tornou impossível contar quantas vezes ouvimos ou pensamos sobre isso. Trata-se de uma afirmação recorrente que, ao mesmo tempo em que nos enche de esperança sobre uma possível novidade salvadora, nos coloca sob o manto nebuloso do desconhecido.

Em poucos meses, praticamente toda a nossa estrutura de vida em sociedade se transformou.  Práticas, hábitos, relações. Tantas palavras e expressões, antes pouco usadas, hoje se tornaram vocabulário cotidiano: toque de recolher, lockdown. Ensino remoto, home office, Call. Saturação, PCR, ventilação mecânica.

Estamos experimentando mudanças estruturais não apenas em nossos alicerces sociais, mas, sobretudo, em nossa condição humana. O quadro, de tão inesperado e imprevisível, nos remete às cenas mais sombrias dos clássicos filmes apocalípticos. Mas é tudo real! Muito real!

E, enquanto tudo isso acontece, buscamos respostas do âmbito mais prático da vida: o que fazer?  Como trabalhar? Como estudar?  E também do âmbito das subjetividades: quem sou? Qual a minha missão nesse mundo? O que isso tudo quer nos dizer?

Luciano Santos, filósofo

São pensamentos individuais, unilaterais que, se analisados de modo mais amplo, refletem o posicionamento das grandes nações, que estão tratando de modo isolado essa que é uma crise societária universal. Cada país cuidando dos seus, sem olhar para o todo, promovendo ações que desaguam em múltiplas agendas reacionárias, atrapalhando a coordenação unificada da crise.

No cerne dessa luta a la “cada um por si” temos a geopolitização da vacina que é agravada pelo desgoverno de alguns países, o perigoso aprimoramento das ferramentas de vigilância, a pretexto do combate à pandemia, e a virtualização de emergência, que agora baliza o modus operandi das nossas rotinas.

O que tudo isso significa para a condição humana e nossos processos civilizatórios?

A condição humana em tempos pandêmicos

A grave crise societária provocada pela pandemia nos obrigou a desenvolver ações de forma apressada para dar conta da celeridade e imprevisibilidade da atuação do vírus. Passamos a pensar em como superar a ameaça imediata, desconsiderando os desdobramentos de tais decisões no futuro que se avizinha, no mundo que habitaremos quando a tempestade passar.

Decisões que antes levariam anos de deliberações são rapidamente aprovadas. Tecnologias imaturas, como as utilizadas no ensino remoto, por exemplo, são inseridas em nosso cotidiano, porque os riscos de não se fazer nada são ainda maiores.

Para o filósofo Luciano Santos, o constante estado de emergência em que estamos vivendo aponta para uma pane na nossa ordem civilizatória.

“Me parece que a proliferação desses estados de emergência está a nos dizer que há uma situação planetária de pane na ordem civilizatória que nos rege, a qual chamamos de globalização. Essa pane no sistema, com todas as séries de emergências que ela suscita, deve radicalizar uma discussão sobre quais as prioridades que cabem ao Estado nesses contextos emergenciais. E é evidente que, no caso específico do Brasil, onde nós vivemos numa situação praticamente de anomia, quer dizer, de sistemática deserção do governo, essa questão se torna extremamente crucial. Retomar a responsabilidade do Estado como gestor da ordem pública é uma questão de sobrevivência coletiva”, destacou Luciano Santos.

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Contudo, lidar com essa condição contínua de emergência e tudo o que ela traz como consequência, é apenas um dos dilemas que a humanidade enfrenta nesse mundo pandêmico. A reboque da crise, surgem agendas reacionárias das mais diversas categorias. Uma delas, a mais polêmica talvez, é a vigilância digital dos cidadãos, justificada pela necessidade de controle da disseminação do vírus. Um labirinto da ética, que nos coloca de frente a uma equação difícil de resolver: direitos individuais X direitos coletivos: os fins justificam os meios?

Olho que tudo vê

Caminhando pelo perigoso trajeto que está nos levando a essa nova ordem civilizatória, citada por Luciano Santos, temos presenciado governos de todo o mundo construindo e executando sistemas de vigilância comportamental, biométrico, genético, geodemográfico. São tantos tipos diferentes de monitoramento social, que seria impossível enumerá-los. Na maioria das vezes, o cidadão sequer sabe que está sendo monitorado e que tem os seus dados capturados.

O debate sobre essa questão é longo, a própria Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) não restringe o uso de dados pessoais, quando a finalidade é para uso de segurança pública e calamidade pública. Por outro lado, existem os direitos individuais, como o direito à intimidade e privacidade, previsto em nossa Constituição Federal, que “oferece guarida ao direito à reserva da intimidade assim como ao da vida privada”.

Núbia Reis, cientista social

Para a cientista social e especialista em direitos humanos Núbia Reis, a economia política de vigilância se situa na linha tênue entre os direitos individuais e os direitos coletivos.

“De maneira geral, todos os países centrais e, em alguma medida os periféricos, usaram do expediente da vigilância digital para o controle sanitário da disseminação do vírus dentro e fora das suas fronteiras. Aqui em Salvador, por exemplo, a prefeitura controla a disseminação do vírus a partir de câmeras termais instaladas na estação de transbordo. A economia política de vigilância se situa na tênue fronteira entre os direitos individuais e os direitos coletivos e difusos. Não é uma equação fácil de resolver. Ainda que possa ter fins coletivos, seus excessos são de difícil controle público e violam frontalmente os direitos individuais. Por isso, os defensores dos direitos humanos reivindicam um esforço global para o controle civil e político, em nível nacional e transnacional, do uso desses dados para outros fins que não ultrapassem o controle da pandemia”, contextualizou a Núbia Reis.

A excepcionalidade utilizada para afrouxar a responsabilidade ética e ampliar a vigilância, nos faz pensar sobre a duração dessas medidas. A humanidade já presenciou medidas autoritárias aprovadas em outras crises e que foram normalizadas depois, como o aumento da vigilância nos EUA, após o 11 de setembro, que durariam até 2005, mas estão vigentes até hoje.

Vigilância digital, monitoramentos, cerceamento da liberdade de expressão e de acesso à informação. São muitas as violações dos direitos individuais durante a pandemia, sempre com a justificativa de contenção do vírus, e os impactos da normalização dessas ações autoritárias para a nossa, já adoecida democracia, podem ser gigantescos.

A geopolítica da morte

Outro ponto ético importante diz respeito a geopolitização da vacina. Interesses comerciais, disputas históricas entre laboratórios e grandes potências econômicas mundiais. O cenário é caótico e hostil.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) tenta assegurar acesso às vacinas e aos equipamentos de proteção para os países periféricos e mais pobres, segue em pauta também a possibilidade de quebra de patentes. Mas um ponto crucial é a celeridade com que essas ações são implementadas, considerando que o vírus parece não respeitar o binômio tempo/espaço da ação política.

Os países mais ricos e com maior acesso a tecnologia garantiram logo as suas doses. Assistimos, por exemplo, nações como o Canadá, ostentar cinco vezes mais doses de vacina do que o necessário para vacinar todos os seus habitantes, enquanto países mais pobres definham e apresentam números alarmantes de óbitos por Covid-19.

Para Núbia, esse cenário, por um lado, indica a ausência dos direitos humanos como padrão normativo, sociorrelacional e ético-político nas decisões sobre a pandemia. Por outro, é uma excelente oportunidade para testar o poder social dos direitos humanos como pilar civilizatório.

“Os países centrais que controlam os investimentos, a produção e a distribuição das vacinas têm uma excelente oportunidade para provar que os direitos humanos não são meros recursos retóricos normativos, políticos e morais. Racionalmente, todos os caminhos apontam que a cooperação solidária seria a melhor via para vencer a pandemia. No plano político e pragmático, temos muitos interesses em jogo que não podemos reduzir a um “isolamento nacionalista”. Neste caso, os interesses econômicos sobrepõem claramente os interesses sociais. Mas, a dinâmica do vírus é um teste para a sobrevivência do sistema neoliberal e seu fetiche pelo mercado como “agência” política e social”, apontou Núbia.

Nesse ínterim, Luciano Santos ressalta que chegamos historicamente a uma encruzilhada, onde a distopia e a utopia se apresentam muito próximas. Para ele, é possível que nosso futuro seja marcado pelo confronto, cada vez mais aberto, entre uma possibilidade distópica e uma possibilidade utópica decorrentes do processo histórico que nos trouxe até aqui.

Juracy Marques, ecólogo humano

“A distopia, quer dizer, toda essa produção de uma ordem civilizatória em que o poder (financeiro, tecnológico-industrial) foi agigantado em detrimento do sentido, produzindo situações cada vez mais insolúveis, aponta para a possibilidade de que os nossos piores pesadelos se tornem cada vez mais normalizados, cotidianos. Mas, justamente em resposta a isso, também vejo que aquelas forças comprometidas com a Vida, atores sociais que levam consigo o compromisso de cuidar das populações humanas e da Terra, que é a nossa morada, vindo a organizar-se, tornem cada vez mais cotidiana a mobilização de uma política utópica, com vistas à transformação dos fundamentos desse sistema insolúvel, inviável, que nos levou até onde estamos”, explicou o pesquisador.

Todo esse cenário político-social que se estabelece coloca em pauta o desrespeito escancarado das liberdades e direitos individuais. A Declaração Internacional dos Direitos Humanos foi o marco civilizatório da humanidade, no pós-guerra, há 72 anos. Sete décadas depois, dentro desse panorama de inversão desmedida de valores, esse documento continua sendo o caminho possível para resgatarmos a dimensão humana da nossa humanidade.

Futuro pós-pandêmico e seu novo desenho civilizatório

O futuro pós-pandêmico é um lugar distante, ainda estamos no epicentro da crise. Mas uma coisa é certa, o futuro chegará, a tempestade passará e teremos que lidar com o resultado das decisões tomadas no hoje. Estamos, nesse exato momento, rascunhando o nosso novo desenho civilizatório, que ditará quem seremos, enquanto humanos, quando esse amanhã chegar.

O ecólogo humano Juracy Marques destaca que, a urgência agora é que mudemos a nossa relação com a natureza e o nosso olhar sobre os modelos civilizatórios que, historicamente, temos pensado como atrasados.

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“O que, de fato, nos torna humanos? De alguma forma vivemos a ilusão de que já superamos a nossa condição animal por uma condição humana. Freud, e muitos outros autores, nos alertam que o animal que fomos ainda nos habita. Poderíamos ir muito longe na reflexão dessa questão, mas simplificaria dizendo que a humanidade da humanidade ainda não chegou. Mas poderá vir, se tomarmos a decisão acertada nesse momento crucial da nossa história e, acredito, a valorização excessiva do capital e da tecnologia, sobretudo, a sedução pela inteligência artificial, não seja o caminho. Só para dar um exemplo, mais de 70% das florestas que ainda estão de pé no planeta, se mantêm em decorrência da forma como os povos tradicionais, particularmente os povos indígenas, se relacionam com a natureza, tendo-a, como algo sagrado”.

A pandemia é uma tragédia civilizatória, que já matou quase quatro milhões de pessoas no planeta, das quais quase 500 mil são brasileiras. Esses números mostram o quanto a vida humana é frágil, mas acima de tudo, o quanto ela é desvalorizada, banalizada.

Juracy finaliza: “Precisamos, nesse momento chave da nossa história, fazer uma opção por um modelo de civilização que honre a jornada extraordinária da nossa espécie como forma de celebração da vida e da existência, que é tão maravilhosa”.

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Todos os pesquisadores que participaram dessa reportagem são professores da UNEB. As entrevistas realizadas com cada um deles renderam um conteúdo tão potente, que decidimos publicá-las na íntegra para que você, leitor, possa ampliar ainda mais seu olhar reflexivo sobre o tema.

Luciano Santos – Currículo Lattes
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Núbia Reis – Currículo Lattes
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Juracy Marques – Currículo Lattes
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ASCOM entrevista: Juracy Marques: “O espírito humano está doente. A pandemia foi uma gota que fez a alma transbordar ao longo da nossa jornada evolutiva”

 

Juracy Marques, ecólogo humano

Ancestralidade, cooperação, reconexão com a natureza. Esses são pontos cruciais destacados pelo professor da UNEB Juracy Marques em entrevista sobre o nosso futuro pós-pandêmico, concedida à Assessoria de Comunicação (Ascom) da universidade.

Juracy, que é ecólogo humano, nos inspira com seu olhar realista a respeito dos perigosos caminhos que estamos percorrendo em nossa jornada evolutiva e sobre as mudanças urgentes que precisamos promover em nós, enquanto indivíduos e enquanto sociedade, para que essa tragédia civilizatória que vivemos hoje, não seja o fim, mas sim o  marco de um recomeço.

Para o pesquisador, “nenhum cidadão desse planeta, deve furta-se ao chamado desesperado que a vida nos impõe”.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Hannah Arendt diz que “Os humanos são responsáveis pela criação contínua de suas próprias condições”. Seríamos, pois, inventores inesgotáveis de nossa própria condição humana?

Juracy Marques: Indiscutivelmente. Isso não quer dizer que pense o mundo, essencialmente, pela dimensão material. Defendo o pressuposto de que há uma causa fundamental para a origem de tudo. Como espiritualista, crítico ao papel das religiões, acredito que o Grande Espírito, por muitos chamados de Deus, Destino, Caos, Olorum, Tupã, Deisnger Inteligente, etc, “é nosso estado de consciência”. Miguel Nicolelis, o “Einstein brasileiro”, no seu mais recente livro “O Verdeiro Criador de Tudo: Como o Cérebro Esculpiu o Universo como Nós o Conhecemos”, escreve que “por volta de 100 mil anos atrás, cada cérebro humano já tinha à disposição por volta de 86 bilhões de neurônios capazes de estabelecer entre 100 trilhões e 1 quadrilhão de contatos diretos, ou sinapses, entre si. De dentro desse atelier neuronal incomensurável, o Verdeiro Criador de Tudo começou a sua obra monumental de esculpir o universo humano como o conhecemos”. Como observamos, as sinapses do nossos cérebro (transformação de estímulos químicos em impulsos elétricos)  são maiores que o número de átomos da nossa Galáxia. Esta citação, a partir de uma teoria cerebrocêntrica, de alguma forma, localista,  sustenta que a vida se resume às aventuras experimentadas pelos nossos cérebros que estão conectados, sincornizados, numa rede que desenha nossos destinos e que Nicolelis nomeou como Brainet.

Tomando a seguinte citação trazida por Goswami, no seu livro “Evolução Criativa”, que diz, “na visão atual, a matéria não evolui até a vida, mas todo o universo material evolui em possibilidades até a primeira célula viva e seu ambiente estarem prontos para manifestar as funções biológicas rudimentares (reprodução e manutenção)”, penso que, a condição humana, com suas dores e sabores, é desenhada num cenário cósmico, também fora do espaço tempo, como ondas de possibilidades, e, não necessariamente, e não apenas biológico-neuronal.

Entretanto, há questões trazidas  na ecologia do cérebro, ou seja, na cerebrosfera, que não podemos subestimar, a exemplo, dos múltiplos comportamentos humanos causados pelos níveis de prazeres (gozo) gerados por nossas interações com a dopamina e outros neurotransmissores. São essas camadas que estão por trás da nova plasticidade civilizatória que atravessamos, mas, dificilmente, relacionaremos uma compulsão por tecnologias ou a desilusão pela vida, o suicídio, mal do nosso século, à atuação dos algoritmos que moldam a nossa percepção da vida, dos nossos gostos e desgostos.

Assim, de inventores da nossa condição humana passamos a ser inventados nessas redes de abstrações mentais que, cotidianamente, nos atravessaram e nos atravessam, na nossa longa jornada civilizatória. Portanto, não há dúvidas que criamos os universos humanos, como as borboletas criam os universos das borboletas, as orquídeas os universos das orquídeas e os vírus, os universos dos vírus. Embora disputemos o controle do mundo com outros seres, particularmente vírus e bactérias, nessas primeiras décadas do século XXI, a nossa espécie está vivenciando o “abismo evolucionário” marcado, sobretudo, pela divinização da tecnologia e do capital. Se continuarmos acreditando nesses dois deuses, nossa espécie experimentará o colapso civilizatório que se avizinha. Precisamos, nesse momento chave da nossa história, fazer uma opção por um modelo de civilização que honre a jornada extraordinária da nossa espécie como forma de celebração da vida, da existência, que é tão maravilhosa.

ASCOM: Mas, com tantas mudanças estruturais em nossa sociedade, que surgem a reboque da pandemia, como ainda é possível manter as características primárias da nossa humanidade, manter aquilo que nos torna humanos?

Juracy Marques: Essa pergunta é marcada por uma inqueitação que trago desde muito tempo: o que, de fato, nos torna humanos? No meu livro “A Ecologia de Freud: Os Ecossitemas da Natureza Humana” mergulho nessas reflexões. De alguma forma vivemos a ilusão de que já superamos a nossa condição animal por uma condição humana. Freud, e muitos outros autores, nos alertam que o animal que fomos ainda nos habita.

Se um primo próximo a nós, nossos irmãos neandertais, chamados, equivocadamente, de “homens das cavernas”, visse a forma destrutiva como estamos estruturando a nossa civilização, acabando com as florestas, construindo armamentos de destruição em massa, causando mundanças nos sitemas climáticos, enchendo o universo de lixo tecnológico, tentando colonizar Marte acreditando no colapso da Terra, enfim, diria que nós somos primitivos demais. Nós somos os homens e mulheres das cavernas digitais.

Voltando à pergunta, há um consenso em muitas ciências humanológicas, que o que marca a passagem do animal para o humano, é o desenvolvimento da linguagem, estruturada na passagem do que chamamos “Revolução Criativa”, datada entre 30 a 70 mil anos atrás. Destaco que estamos falando de um espécie cujos ancestrais datam de mais de 7 milhões de anos e que, por volta de 300 mil anos, já tinha chegado à condição Sapiens. Então, o que carregamos nessa nova roupagem da nossa espécie, como a inerdição do incesto, a dinamização da linguagem, a ritualização da morte e o culto às divindidades, entre outros aspectos, é algo bem recente no nosso comportamento humano e se deve, entre outros fatores, à bipedização e, acredita-se, ao aumento do nosso cérebro.

Poderiamos ir muito longe na reflexão dessa questão, mas simplificaria dizendo que a humanidade da humnidade ainda não chegou, poderá vir se tomarmos a decisão acertada nesse momento crucial da nossa história e, acredito, a crença excessiva no capital e na tencologia, sobretudo, a sedução pela inteligência artificial, tão cultuada por transhumanistas e singularistas, não seja o caminho. Só para dar uma exemplo, mais de 70% das florestas que ainda estão de pé no Planeta, estão em decorrência da forma como os povos tradicionais, particularmente os povos indígenas, se relacionam com a natureza, tendo-a, como algo sagrado.

Então, o futuro da humanidade deve olhar para estes modelos civilizatórios que, historicamente temos pensado como atrasados. O elogio da modernidade, o culto ao modelo civilizatório colonial supremacista, ainda em voga, deve ruir e, no seu lugar, devemos plantar uma nova forma de ver o mundo que está no coração dos povos que amam a natureza e a vida e que não tiveram a alma ressecada pela ganância ao poder, ao dinheiro.

ASCOM: Você acredita que a pandemia é/será um marco evolutivo da humanidade? Seria ela a matriz para a construção de um novo mundo?

Juracy Marques: Poderíamos aprender muito com esta experiência. Como diz Krenak, “o presente é um presente.” Entretanto, como está exposto, os  escarniçadores da Terra, os donos do capital, que só pensam em acumular riqueza, e isso se dá pela destruição da natureza, que é a origem das pandemias, continuaram sua carnificina ecológica sem nenhum pudor na pandemia. Não há limites para a ambição dessa parcela da humanidade. Krenak usou uma metafóra que me agrada muito: “gostaria de colocar todos os biblionários do mundo, que só pensam no capital, dentro de um cofre e tracá-los com o dinheiro deles dentro”.

Certa vez, vi escrito numa aldeia hippie, na Bahia: “está chegando o tempo em que os pobres temerão a fome e os ricos temerão os famintos”. Não podemos ignorar que é a luta pela sobrevivência que ditam as leis da seleção natural.  Então! Vivemos a era dos extremos. Poderíamos ter aprendido muito com as lições trazidas por esta pandemia que já matou 4 milhões de pessoas no Planeta, destes, quase 500 mil irmãos brasileiros. Mas, não! Os donos do capital estão aproveitando esta tragédia civilizatória para aumentar suas riquezas mesmo que isso, possa indicar, o fim da humanidade, e, acho, se eles também  forem humanos, deles.

ASCOM: Reinventamos a nossa humanidade em cada marco evolutivo?

Juracy Marques: Sim, mas essa reinvenção, necessariamente, não quer dizer que estamos tendo vantagens evolutivas. Veja o progresso da ciência e, como consequência, criamos as condições para exterminarmos toda a humanidade, que vantagem evolutiva há nisso? Há mais ganhos nos modos primitivos dos nossos ancestrais, que nas fantasias que cultuamos sobre nosso futuro.

ASCOM: Que civilização a humanidade está desenhando para o nosso futuro pós-pandêmico?

Juracy Marques: Observamos, estamos quase todos traumatizados. O espírito humano está doente. A pandemia foi uma gota que fez a alma transbordar nesse oceano que ficou cheio ao longo da nossa jornada evolutiva. O momento de agora e, pós-pandemia, exigem que tiremos das mãos dos detentores do capital, o controle pelo destino do mundo. Eles não amam a vida, amam apenas o dinheiro. Portanto, o que estou dizendo, claramente, é que, só haverá nosso futuro se o recuperarmos das mãos ecocidas dos detentores do capital, que têm levado, para os desertos da alma, toda a beleza de se viver. Eles são amargos, nunca saberão a grandiosidade de viver uma vida simples, conectada com a natureza, solidário aos nossos semelhantes. Eles não honram a dimensão fundamental para o sucesso evolutivo da nossa espécie: a cooperação.  Suas percepções existenciais são egocentradas. Como diz Davi Kopenawa Yanomami, “eles só sabem escavar as doenças do coração da Terra”. Desejo, mesmo, que nossas vidas pós-pademia, caso não seja normal, ao menos não seja anormal.

ASCOM: Sei que é impossível prever o que virá, mas, considerando a sua área de estudo e empirismo, quando você fecha os olhos e pensa no futuro, o que vê?

Juracy Marques: Quando olho o futuro só vejo a natureza. A reconexão com a natureza é que poderá nos salvar. Dou este conselho a quem está perdido nos cárceres algorítmicos onde nos escravizamos. Vá para a natureza e se salve!

Quando olho para a Natureza sinto-me perto de Deus. Me apaixonam os pássaros, as flores, os rios, o mar… Minha alma vive dessas formas de me encantar pelo olhar. Não sei como descrever, mas meu espírito se vê espelhado na face de Deus refletida na Natureza.

A Ecologia tornou-se, para mim, minha religião. Sou um ecoespiritualista tão perdido nesse universo quanto uma folha jogada às tempestades da existência. Mergulho no Espírito de Deus todas as vezes que entro na alma das flores ou no silêncio das estrelas. Mas, nesta questão, não estou passivo, estou lutando, militando.

Mas, alerto, essa ciência dos sistemas da vida é tão preciosa e tão perigosa. Os debates socioambientais, todos eles, quer os que defendem a conservação das florestas, das montanhas, dos rios e oceanos até aqueles que tratam das pegadas ecológicas da espécie humana, estão sob o controle de uma sofisticada rede do crime organizado que gozam da proteção política e econômica das grandes corporações internacionais. Isso vale para os sistemas de produção de energia, para o mercado das infraestruturas, para as destrutivas atividades minerárias, para a ambiciosa usurpação da biodiversidade e para a inominável teia da exploração e escravização humanas.

Chico Mendes dizia que “fazer ecologia sem luta de classe é praticar jardinagem”. Esse campo não é tarefa para pessoas ingênuas e amadoras. Requer, também, uma posição ética radical que exige de nós negarmos a negação e passarmos a assumir uma postura ética revolucionária com a nossa própria vida. Temos que, de fato, ser a mudança que desejamos para o mundo. E como dizia Disraeli, “o momento exige que os homens de bem tenham a audácia dos canalhas”.

Nenhum ecólogo, nenhum cidadão desse Planeta, deve furta-se ao chamado desesperado que a vida nos impõe. Espero que, quem esteja lendo este desabafo da minha alma, seja mais uma gota nos rios de esperança que alimentam nossa vida oceânica que nesse momento grita.

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Juracy Marques (ver currículo lattes) é fonte da nossa primeira edição da Reportagem de Capa Pandemia e condição humana: que futuro estamos desenhando para a humanidade? Já conferiu? Clica aqui e nos acompanhe nessa jornada reflexiva sobre o desenho civilizatório que estamos rascunhando para o nosso amanhã.