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ENTREVISTA: UNEB recebe a exposição “Zona Dolorosa”, de Mariana Meireles

ASCOM ENTREVISTA

Mariana Meireles concedeu entrevista em sua exposição na Reitoria da UNEB

A dor que atravessa silenciosamente o cotidiano docente dificilmente cabe em palavras. É esse o ponto de partida da exposição “Zona Dolorosa – Quando a dor passa a existir“. A mostra resulta da pesquisa de pós-doutorado “Visualidades da dor: um ensaio sobre condições de trabalho e mal-estar docente no ensino superior”, desenvolvida no Grupo de Pesquisa (Auto)Biografia, Formação e História Oral (Grafho), da UNEB, e vinculada ao Instituto Nacional de Política Educacional e Trabalho Docente (INCT Gestrado), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob supervisão dos professores Elizeu Clementino (UNEB) e Jorge Ramos do Ó (Universidade de Lisboa, Portugal).

Após estrear na Capela da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, em setembro de 2024, e ser exibida no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em julho deste ano, “Zona Dolorosa” chega agora ao Brasil. A exposição pode ser visitada até o próximo dia 19 de novembro, no Hall da Reitoria da UNEB, Campus I, em Salvador, das 8h às 18h.

De modo poético, a mostra transforma a dor docente em metáfora visual, destacando a crescente preocupação com a saúde e o mal-estar no trabalho. Segundo a professora Mariana Meireles, o objetivo é dar forma ao que é íntimo, sensível e majoritariamente invisível no cotidiano dos professores.

“Zona Dolorosa” integrou ainda a programação do XIV Encontro Internacional da Rede Estrado, realizado entre 11 e 14 deste mês, no mesmo campus da UNEB.

Como surgiu esse projeto?

Mariana Meireles – O projeto da exposição surgiu de uma análise profunda dos dados biográficos compartilhados por professores universitários. A partir desse processo de depuração, desenvolvi a performance e o roteiro narrativo, que foram capturados pelo olhar sensível do fotógrafo Itarcio Lima. Ao usar meu próprio corpo como extensão da pesquisa, observei as nuances da profissão presentes nos 213 docentes participantes. Pela escuta atenta, procurei compreender tanto os corpos automatizados pelo trabalho quanto a forma como cada professor lida com suas sensibilidades ao narrar sua experiência profissional.

O que representa a “zona dolorosa”?

Mariana Meireles – A expressão legitima a experiência subjetiva da dor, oferecendo a possibilidade de explorar, por meio da imagem, a realidade vivenciada pelos docentes universitários. Nesse contexto, o trabalho com a fotografia se configura como uma tentativa não apenas de representar o fenômeno em questão, mas, principalmente, de extrair delas (fotografias) um conhecimento.

Que corpo você busca apresentar na exposição?

Mariana Meireles – O corpo dos professores, revelado em um processo poético que ativa camadas de significados por três vias: sensorial, óptica e tátil. A exposição evidencia as relações circunstanciais e intersubjetivas que marcam esses corpos, mostrando como eles enfrentam, de modo frequentemente desconcertante, o ato de ensinar e produzir ciência na contemporaneidade.

Como foi transformar algo tão íntimo, a dor, em imagem?

Mariana Meireles – Foi um processo profundamente poético e cuidadoso. Trabalhamos a partir da visão, da escuta e da sensibilidade corporal, permitindo que o próprio corpo se expressasse por meio das imagens. A intenção jamais foi estetizar ou espetacularizar a dor, mas torná-la visível de maneira ética, sensível e reflexiva.

Como foi o processo criativo?

Mariana Meireles – Após um processo criativo e investigativo de cerca de um ano e meio, o projeto resultou em um único ensaio fotográfico. Depois, o trabalho de curadoria, em que foram selecionadas 18 imagens e organizadas em seis séries temáticas: Corpo condicionado e suas ressonâncias; Cartografia de uma imensidão íntima; Exercícios para mensurar a dor; Sintomas do mal-estar, manejos da dor; Exercícios para desatar a dor; e Sombras libertadoras.

Que elementos simbólicos aparecem nas imagens?

Mariana Meireles – Uma placa de potência oxidada que sugere a tensão entre a automação e a falência dos corpos. A fita métrica que alude à tentativa de medir a dor. A linha que reúne pontos de encontro entre o limite do que fere e as possibilidades de sutura. Um prato de moedas que expõe o trabalho como meio de vida e de morte. E, por fim, comparecem as tentativas de silenciar a dor, por meio do uso de medicamentos.

Por que as fotos são, em sua maioria, em preto e branco?

Mariana Meireles – Porque buscamos uma poética da dor que evitasse distrações. O percurso em tons monocromáticos conduz, demoradamente, o espectador pela “zona dolorosa”. Apenas duas séries fotográficas são propositalmente coloridas: as imagens de entrada da exposição, que apresentam tons avermelhados, evocando a intensidade da dor, e as imagens de saída, que optam por exibir tons esverdeados, associados à cura e ao apaziguamento.

Quais foram os principais achados da pesquisa com os professores?

Mariana Meireles – A pesquisa evidenciou que professores do ensino superior, tanto no Brasil quanto em Portugal, vivenciam forte precarização das condições de trabalho. Esse cenário impacta diretamente seus corpos, sua saúde mental e seu bem-estar, constituindo um quadro amplo de mal-estar docente. As reflexões dos próprios professores sobre essas vivências mostram que os modelos neoliberais que estruturam a academia intensificam esse sofrimento, revelando a necessidade de repensar formas de organizar o trabalho docente. Por fim, o estudo aponta para a urgência de ações conjuntas voltadas à prevenção e promoção da saúde dos docentes, fundamentadas em melhorias reais nas condições laborais.

Como essa discussão se relaciona com o contexto atual?

Mariana Meireles – A discussão conecta-se diretamente ao contexto contemporâneo, marcado por velocidade, competição, exigência de desempenho e hiperprodutividade. Esses valores, característicos da cultura contemporânea, foram incorporados à vida universitária, produzindo cansaço, sobrecarga e esgotamento entre os docentes. O hiperprodutivismo, ao priorizar quantidade em detrimento de qualidade, enfraquece o próprio papel intelectual do professor, empobrece o sentido da docência e acelera a produção do conhecimento de forma superficial. Assim, mesmo que esse modelo seja adotado para elevar indicadores e melhorar rankings institucionais, ele acaba colocando em risco ou mesmo suspendendo a função científica, política e intelectual das universidades.

Qual é o objetivo último do projeto?

Mariana Meireles – O objetivo desse trabalho é humanizar a figura do professor, recolocando o corpo e sua dor no centro das discussões sobre a profissão docente. Ao tensionar a ideia de automatização e o apagamento das experiências corporais, o acervo imagético expõe como o trabalho docente captura a vitalidade dos corpos e produz sofrimento. Em “Zona Dolorosa”, a dor ganha forma estética, tornando-se visível e pensável; ao deixar de ser apenas íntima e incomunicável, ela se torna matéria palpável nas imagens, revelando não só um sofrimento individual, mas um mal-estar compartilhado por muitos docentes. Assim, o projeto busca evidenciar que essa dor, embora pessoal, constitui também um problema coletivo e de saúde pública, cuja atenção é urgente e indispensável.

Entrevista concedida a Marcus Gomes/Ascom, com edição de Scheilla Gumes/Ascom.
Fotos: Ascom. Imagem: divulgação.

Rede Estrado inicia encontro internacional na UNEB sobre direitos humanos, escola pública e trabalho docente na AL

Na sessão de abertura, no teatro da universidade, os 25 anos da rede foram celebrados

Com o tema “Direitos humanos, escola pública e trabalho docente: crise política, disputas e resistências na América Latina“, teve início na tarde de ontem (11) o XIV Encontro Internacional da Rede Estrado no Teatro UNEB, Campus I, em Salvador.

Essa edição, que marca os 25 anos de fundação da Rede Latino-americana de Estudos sobre Trabalho Docente (Rede Estrado), está reunindo na UNEB mais de 700 participantes da Bahia e outros estados e de 14 países da região, além de convidados dos Estados Unidos (EUA). O evento tem transmissão ao vivo pelo canal da TV UNEB no YouTube.

Reitora Adriana Marmori destacou compromisso social e interiorização da UNEB

A ampla programação se prolonga até esta sexta-feira (14) em diferentes espaços da UNEB, contemplando conferências, 16 mesas-redondas, duas sessões de conversas, duas de pôsteres e 36 painéis em onze eixos temáticos, além de atividades artísticas e culturais.

Presidindo a mesa de abertura, a reitora Adriana Marmori ressaltou o compromisso social da UNEB e a interiorização da produção de conhecimento na universidade.

“A UNEB, atualmente, possui 64% dos programas de bolsas de pesquisa e pós-graduação distribuídos em nossos campi no interior do estado. Isso significa mudar o lugar de produção de conhecimento. Somos uma universidade popular que também contribui na formulação de políticas públicas, para que possamos construir um mundo mais inclusivo, democrático e igualitário”, destacou Adriana Marmori.

Compuseram também a mesa os coordenadores-gerais da Rede Estrado Elizeu Clementino e Sofía Thisted, o diretor de programas e bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Luiz Pessan, e a diretora de cooperação institucional, internacional e inovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Dalila Oliveira.

Assista aqui à íntegra da sessão de abertura

Elizeu Clementino: fortalecer defesa da educação pública e dos trabalhadores

Segundo Elizeu Clementino, que é pró-reitor de Pós-Graduação (PPG) da UNEB, essa edição representa um marco para a rede. “Neste ano, além de comemorarmos os 25 anos da Rede Estrado, buscamos refletir sobre as relações entre direitos humanos, escola pública e trabalho docente, considerando o atual contexto de crises política e social na região”, afirmou.

“Nosso objetivo é fortalecer as contribuições e as agendas de defesa da educação pública e dos trabalhadores em educação, por meio do diálogo entre pesquisadores e docentes da academia, professores da educação básica e representantes de movimentos sociais”, contou o coordenador-geral.

A edição registrou 452 trabalhos submetidos, entre comunicações científicas, relatos de experiências e pôsteres, com um alcance internacional expressivo.

Desafios na educação latino-americana

Docente da Universidade de La Plata (Argentina), Sofía Thisted ressaltou o atual contexto de restrições e retrocessos nas políticas científicas e educacionais em seu país. “Na Argentina, enfrentamos um cenário de perseguição ideológica, perda do poder de compra e corte severo de investimentos em ciência e pesquisa. A ausência de recursos ameaça projetos que demandam anos de trabalho”, explicou.

Sofía Thisted, da Argentina, defendeu uma educação voltada para o Sul Global

Na avaliação da coordenadora-geral, “o intercâmbio com o Brasil é essencial para pensarmos estratégias conjuntas de superação e para construirmos futuros alternativos para a educação pública latino-americana”.

“Precisamos promover uma educação voltada para o Sul Global, concebida a aqui no Sul e para os países do Sul. A cooperação entre nações latino-americanas é vital para a defesa da educação pública”, completou Sofía Thisted.

Já o gestor da Capes Luiz Pessan assinalou a relevância do encontro, pontuando que “a educação é o alicerce da soberania nacional de cada país, e todas as áreas do conhecimento dependem de uma base educacional sólida”.

Luiz Pessan (Capes): “Educação é o alicerce da soberania nacional”

“A Capes tem trabalhado para reconstruir políticas públicas, ampliar programas de pós-graduação e reduzir desigualdades regionais. Eventos como esse demonstram o vigor e o compromisso da academia com a transformação social“, avaliou Luiz Pessan.

A realização do XIV Encontro Internacional da Rede Estrado na UNEB reforça o protagonismo da universidade como referência na promoção de debates sobre educação, direitos humanos e políticas públicas, consolidando a atuação da instituição no fortalecimento das redes de pesquisa e cooperação acadêmica no Brasil e na América Latina.

A Rede Estrado foi criado em 1999, sendo reconhecida por promover a integração e o intercâmbio entre pesquisadores da América Latina, fortalecendo a produção de conhecimento e o debate sobre o papel docente e a valorização da escola pública nos países da região.

Texto: Marcus Gomes/Ascom, com edição de Toni Vasconcelos/Ascom. Fotos: Danilo Oliveira/Ascom.

Encontro internacional da Rede Estrado na UNEB debate trabalho docente na AL; abertura dia 11/11, em Salvador

A UNEB sediará, em Salvador, entre os dias 11 e 14 de novembro, o  XIV Encontro Internacional da Rede Estrado – iniciativa voltada à consolidação e divulgação dos estudos e pesquisas sobre o trabalho docente na América Latina.  

Esta edição terá como tema “Direitos Humanos, Escola Pública e Trabalho Docente: Crise política, disputas e resistências na América Latina”, e prevê uma programação com 16 mesas redondas, 2 sessões de conversas, duas sessões pôsteres, 36 painéis simultâneos, contemplando participantes de 11 países reunidos a partir de onze eixos temáticos.  

Os interessados em participar podem se inscrever através do site do evento, mediante pagamento de taxa conforme a categoria selecionada. 

Estão previstos também lançamento de livros, atividades culturais e uma assembleia final, em que serão apontados encaminhamentos de contribuições para elaboração e avaliação de políticas públicas relacionadas à formação e valorização docente.  

Pesquisadores da UNEB participam da programação e integram também a comissão organizadora internacional com os professores Michael Daian Pacheco e Elizeu Clementino, que também coordena a comissão científica. 

“O evento é um espaço de discussão, intercâmbio e divulgação da pesquisa em educação, que tem como foco a docência no contexto latino-americano. O tema desta edição reflete o compromisso da Rede Estrado com os atuais desafios de luta pela ampliação de direitos humanos, sociais e na defesa da democratização da educação no contexto latino-americano”, explica o professor Elizeu.  

O encontro será realizado pela UNEB com o apoio institucional da Reitoria da UNEB, da Pró-reitoria de Pesquisa e Ensino de Pós-graduação (PPG/UNEB), do Programa de Pós-graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC/UNEB), do Departamento de Educação (DEDC-Campus I), do Departamento de Ciências Exatas e da Terra (DCET-Campus I) e da colaboração do Grupo de Pesquisa (Auto)biografia, Formação e História Oral (Grafho/UNEB).   

A iniciativa conta também com apoio de agências de fomento, tais como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do INCT GESTRADO – Políticas Públicas e Trabalho Docente, além do apoio da Confederação nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). 

A Rede Estrado é uma rede com pesquisadores latino-americanos que investigam o trabalho docente, promovendo intercâmbio de pesquisas e publicações conjuntas de pesquisadores latino-americanos. Este seminário celebra os 25 anos de existência da rede.