ASCOM Entrevista: Luciano Santos “Chegamos, historicamente, a uma encruzilhada, onde a distopia e a utopia se apresentam muito próximas”

 

Luciano Santos, filósofo

Conhecido por seu discurso coerente, firme e amoroso sobre o mundo e a humanidade, o professor da UNEB Luciano Santos nos presenteou com reflexões sobre a condição humana em tempos pandêmicos em entrevista concedida à Assessoria de Comunicação (Ascom) da universidade.

Luciano,  que é doutor em filosofia, faz uma análise do cenário atual, sinalizando a existência de uma pane na ordem civilizatória que nos rege, a globalização. Para ele, “o poder foi agigantado em detrimento do sentido, produzindo situações cada vez mais insolúveis, que tornam os nossos piores pesadelos cada vez mais normalizados, cotidianos”.

Nesse bate-papo, o pesquisador nos conduz por uma trilha reflexiva potente, indicando que, no mundo pós-pandemia, ousemos “trabalhar por uma mudança de época que seja muito mais que só que a continuação desenfreada de uma época de mudanças, que parece caminhar cada vez mais para o vazio”.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Emergência virou a palavra da vez. Todas as decisões precisam ser imediatas, sejam nas UTIs hospitalares ou na vida política, por exemplo. Quais as consequências desse estado constante de emergência para o futuro da humanidade, principalmente no contexto de desgoverno que vivemos no Brasil?

Luciano Santos: Me parece que a proliferação desses estados de emergência estão a nos dizer que há uma situação planetária de pane na ordem civilizatória que nos rege e que nós chamamos de globalização. Essa pane no sistema com todas as séries de emergências que ela suscita, deve radicalizar uma discussão sobre qual é o sentido do estado como gestor da ordem pública e, especialmente, quais as prioridades que cabem ao estado nesses contextos emergenciais, no sentido de transformar essas prioridades em políticas públicas.

E é evidente que, no caso específico do Brasil, onde nós vivemos numa situação praticamente de anomia, quer dizer, de sistemática, deserção do governo, das suas políticas públicas e do seu compromisso com princípios civilizatórios, essa questão se torna extremamente crucial.  Retomar essa responsabilidade do Estado como gestor da ordem pública é uma questão realmente de sobrevivência coletiva, sobretudo ao que se refere àqueles setores da população que são mais e mais desconsiderados tradicionalmente pelos governos.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Pensando na geopolítica da vacina, no isolamento nacionalista (cada nação por si) e na vigilância totalitária (privacidade hackeada). Que avaliação você faz da condição humana hoje, nesse contexto pandêmico mundial? E no Brasil?

Luciano Santos: Bem, de saída eu gostaria de ressalvar que essa situação de isolamento nacionalista não é propriamente de todos os países, quer dizer, não é uma constituição do nosso contexto, é fruto de uma posição política. Há países, sem dúvida alguma, melhor alinhados com a chamada ordem civilizatória global, que optam por fazer políticas que priorizam não apenas a os próprios setores internos , que já usufruem de maiores poderes econômicos e de maior acesso a direitos e a privilégios.

É preciso também lembrar que há países, e eu destaco um exemplo quase, digamos, paradigmático, que é o de Cuba, onde apesar de todos seus desafios e fragilidades internas, estabelecem ordens de prioridade que não apenas fazem com que se programem para responder as suas demandas internas, dando mais atenção aos vulneráveis, como também se mobiliza no sentido de organizar uma globalização da solidariedade. Quer dizer, prestando ajuda a países, por vezes até tradicionalmente mais desenvolvidos, ou assim, reconhecidos, no que se refere a vacina, atendimento médico e assim por diante.

Gostaria também de lembrar a existência do estado para administrar, gerir necessidades públicas e  não gerir pessoas. Quer dizer, trata-se de intervir nos problemas de ordem pública, especialmente, quando afetam setores desprotegidos, e não controlar a vida dos cidadãos, aí considerados como indivíduos. Então, nesse sentido, é muito importante que, esse contexto pandêmico, nos desperte para questionar qual é a razão e qual é o destino civilizador do estado, em relação aos problemas e às pessoas.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Considerando os caminhos e descaminhos da nossa história, mudanças estruturais como a que experienciamos hoje com a pandemia podem mudar as características primárias da nossa natureza humana? Você acredita que a pandemia é/será um marco evolutivo da humanidade? Seria ela a matriz para a construção de um novo mundo?

Luciano Santos: Bem, eu não estou convencido de que em decorrência da pandemia nós estejamos passando por mudanças estruturais. Isso é justamente o que eu gostaria que acontecesse. Mas, seguramente, estamos vivendo impactos profundos, impactos sísmicos, digamos assim, na nossa ordem civilizatória. Também não sei ou tendo a não acreditar, que essas mudanças que estamos sofrendo a partir da pandemia, tenham exatamente que mudar as características da nossa natureza humana. Mas a minha esperança é de que as mudanças em curso possam oportunizar justamente uma revisão do projeto civilizatório, hoje, definido por impasses, insolvência e irracionalidade sistêmica, onde todo poder do conhecimento e da tecnologia se destina ao acumulo de poder, por uma reduzidíssima minoria da população mundial. Falo de uma revisão que, ao contrário de mudar características da natureza humana, reafirmasse aquilo que justamente é a humanidade em nós. E que se está perdendo com essa forma de organizar a sociedades, de organizar a nossa existência coletiva, que é a que nos trouxe até essa crise.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Você acredita que a pandemia é será um marco evolutivo da humanidade? Seria ela a matriz para a construção de um novo mundo?

Luciano Santos: De fato, o que nos resta e esperar ou apostar proativo, né? Não é justamente a volta ao normal, como no ano passado, por exemplo, no início da pandemia, tanto se suspirava numa espécie de impaciência que o confinamento gera. Trata-se, mais precisamente, da desnaturalização do normal, ou seja, a consideração de que essa tal ordem natural das coisas, de que essa tal civilização humana, ocidental e muito, impropriamente dita cristã, porque de cristã não tem nada, sirva de parâmetro para a nossa organização como sociedade.

Então, de fato, a esperança que fica é que o pós-pandemia, seja o desafio de ousarmos trabalhar por uma mudança de época que seja muito mais que só que a continuação desenfreada de uma época de mudanças, que parece caminhar cada vez mais para o vazio. Quanto mais acelera a engrenagem, mas se precipita para borda do abismo.

Assessoria de Comunicação (ASCOM): Sei que é impossível prever o que virá, mas, considerando a sua área de estudo e empirismo, quando você fecha os olhos e pensa no futuro, o que vê?

Luciano Santos: Nós chegamos, historicamente, a uma encruzilhada, onde a distopia e a utopia se apresentam muito próximas, eu diria mesmo muito!  A distopia quer dizer, toda essa produção de uma ordem civilizatória em que o poder foi agigantado em detrimento do sentido, produzindo situações cada vez mais insolúveis, que tornam os nossos piores pesadelos cada vez mais normalizados, cotidianos.

Mas, justamente, em face disso e em resposta a isso, também vejo que aquelas forças comprometidas com a vida, que alguns chamam de terranos, isto é, aqueles que não apenas se encontram passando pela Terra, mas que levam consigo o compromisso de cuidar da terra na sua integralidade, cuidar das populações humanas, cuidar do meio ambiente, que é a nossa morada, portanto, cuidar de aquilo que faz a nossa existência terrena.  Vejo, pois, esses atores comprometidos não apenas com a sobrevivência, mas com o nosso bem viver. Esperamos que eles se tornem cada vez mais organizados, cada vez mais indignados com o estado a que chegamos e que, portanto, tornem também cada vez mais cotidiana a mobilização de uma política utópica, em vista da transformação dos fundamentos desse sistema insolúvel, inviável, que nos levou até onde estamos.

Portanto, vejo no presente uma perspectiva, nos tempos que se avizinham, de um confronto cada vez mais aberto entre uma possibilidade distópica e uma possibilidade utópica decorrentes do processo histórico que nos trouxe até aqui.

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Luciano Santos (ver currículo lattes) é fonte da nossa primeira edição da Reportagem de Capa Pandemia e condição humana: que futuro estamos desenhando para a humanidade? Já conferiu? Clica aqui e nos acompanhe nessa jornada reflexiva sobre o desenho civilizatório que estamos rascunhando para o nosso amanhã.